Janela sobre o rebaixamento

Devemos confiar em quem está nos mostrando o caminho?

O rebaixamento da nota do Brasil pela S&P* foi assunto onipresente: abrindo o jornal, ligando o rádio, em todos os jornais dos vários canais de TV ou mesmo apertando a descarga, lá vinha a ladainha dos especialistas consultados pelos jornalistas. O “naipe” dos especialistas impressiona. No rádio, Luiz Mendonça de Barros explicou o peso do rebaixamento sobre a economia brasileira devido aos fundos que investem em países seguindo o rating das consultorias. Resta saber se ao negociar a privatização de empresas de telecomunicações por fora do leilão, fazendo uso de recursos de fundos de pensão, o ex-ministro do FHC consultou alguma consultoria de risco. Na Globo, um economista de uma empresa chamada Austin Rating (parece nome de carro usado em filme de espionagem), explicou didaticamente que as consultorias são como os professores que dão nota aos seus alunos para indicar se estão melhorando o desempenho. Fico aqui me imaginando num arranha-céu de Wall Street dando notas para alunos que vivem do outro lado do mundo, sequer sabem que eu existo, nunca ouviram uma lição minha e ainda assim ficam desesperados porque rebaixei sua nota para D ou E. Aliás, o economista fez questão de dizer que isso é sinal de que o governo não fez o “dever de casa” – esse é um termo recorrente na boca dos economistas e guarda a saudade daqueles professores autoritários mas ridículos, estilo Unrat. No jornal da Band, aquele canal que ninguém vê mas que diariamente denuncia o bolivarianismo do governo brasileiro, defende o agronegócio contra o radicalismo ecológico e trata direitos civis como sinônimo de comunismo, chamou ninguém menos do que Eduardo Cunha para explicar o significado do rebaixamento da nota do Brasil (ontem ele opinou sobre a política fiscal do governo e citou até Maquiavel nesse mesmo jornal). Será que a Austin Rating já começou a fazer avaliação de risco das igrejas? Qual seria a nota da Assembleia de Deus depois que o senhor Eduardo Cunha, conforme denúncia da Procuradoria Geral da República, recebeu propina através da Assembleia de Deus? Qual o tamanho da fé desse templo tão tradicional? BBB+? O que impressiona é o papaguear ao redor de um aspecto econômico isolado, parcial, de impacto reduzido sobre qualquer operação produtiva ou mesmo financeira, sem nenhuma legitimidade ou seriedade. Reverberado por uma dúzia de jornalistas oportunistas e uma centena de repórteres imbecis, a discussão assume proporções incalculáveis. Resta o diagnóstico um tanto esquecido de Karl Kraus: “O que a sífilis poupou será devastado pela imprensa. Nos amolecimentos cerebrais do futuro, não se poderá mais constatar a causa com segurança”.

Mais alguns dados pertinentes:

A S&P* foi ré num processo movido pelo departamento de justiça dos Estados Unidos por ter mascarado o grau de risco de investimento nos chamados papéis subprime, os laranjas da crise “desencadeada” em 2008.

Essas empresas de consultoria davam notas elevadas (AA) para imobiliárias e os fundos de investimento que apostavam na pirâmide das hipotecas quebraram. Entre os economistas de Wall Street, os avaliadores de risco são tratados como idiotas, pois a função de muitos operadores do mercado financeiro é ludibria-los constantemente com dados maquiados, relatórios parciais etc…

No mercado de derivativos imobiliários, nos pacotes de títulos lastreados em hipotecas subprimes, as empresas davam notas elevadas à pacotes que elas sequer sabiam do que se tratava. A imprensa aqui, no entanto, faz um escarcéu com uma notícia dessas que não tem importância nenhuma. A pergunta é: Por que o governo se mostra incapaz de ridicularizar essas empresas de rating? Afinal, ao simplesmente emitir uma nota mostrando a “confiabilidade” dessas empresas no episódio do subprime, ninguém discutiria mais o assunto.

* Standard & Poor’s: Agência Norte Americana de avaliação de risco de investimento.

 


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